oqubay2_PIUS UTOMI EKPEIAFP via Getty Images_ethiopiacoronavirussanitizer Pius Utomi Ekpei/AFP via Getty Images

Quando o COVID-19 chegar a África

ADIS ABEBA – O coronavírus COVID-19 – que já alastrou a mais de 100 países – empurrou o mundo para “território inexplorado”, segundo o Director-Geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom. Até agora, África registou um número relativamente baixo de infecções, mas não existem motivos para crer que a situação não mudará. Quando mudar, os resultados poderão ser catastróficos.

Só precisamos de recordar a epidemia de Ébola na África Ocidental entre 2014 e 2016 para compreendermos os danos potenciais. Os países mais atingidos foram a Guiné (com 3 814 casos e 2 544 mortes), a Libéria (10 678 casos e 4 810 mortes), e a Serra Leoa (14 124 casos e 3 956 mortes). Além disso, desde Agosto de 2018 que a República Democrática do Congo enfrenta a sua própria epidemia de Ébola em larga escala, com mais de 3 444 casos e 2 264 mortes (a 10 de Março de 2020).

Embora o Ébola tenha uma taxa de mortalidade muito superior à do COVID-19, a rápida propagação deste último mostra que também pode fugir rapidamente ao controlo e causar sérias perturbações sociais e económicas. A taxa de infecção na China, por exemplo, só começou a decrescer após semanas de medidas ousadas e consistentes, da mobilização comunitária activa e de medidas de confinamento “draconianas”. Se o vírus foi verdadeiramente contido, é algo que ainda precisa de ser confirmado.

No caso de África, começou a corrida para a preparação. Isto significa aplicar urgentemente as lições aprendidas com os recentes surtos de Ébola, que começam por reconhecer que a debilidade dos sistemas nacionais de saúde piora um problema que já é complicado. Muitos destes sistemas têm grandes carências a nível de financiamento, de infra-estruturas e de competências. Como afirmam os investigadores Peter Piot e Julia Spencer, juntamente com o médico liberiano Moses J. Soka, “os países têm de fortalecer as suas capacidades fundamentais para prevenir, detectar e responder a surtos, com investimento nacional adequado e, quando necessário, com investimento internacional”.

Mas o investimento directo nas infra-estruturas e nos serviços de saúde é apenas o primeiro passo. O combate contra o Ébola foi frequentemente dificultado pelo seu contexto social, que inclui dinâmicas comunitárias, crenças locais, instabilidade política, fragilidades económicas e falta de confiança no governo e nas instituições. Os esforços para reforçar os conhecimentos e a confiança do público são por isso críticos para a eficácia de qualquer estratégia de resposta ao COVID-19.

As pessoas precisam de saber, por exemplo, que alterações básicas ao comportamento – especialmente, lavar as mãos de forma frequente e minuciosa, tossir para o antebraço e evitar aglomerações – podem ter uma grande influência. Têm de reconhecer que as máscaras não protegem o público em geral, e que as tentativas de açambarcamento de máscaras levaram à subida de preços e à escassez para os profissionais de saúde. E têm de compreender que ainda estamos muito longe de uma vacina perfeitamente comprovada.

Subscribe to Project Syndicate
Bundle2020_web

Subscribe to Project Syndicate

Enjoy unlimited access to the ideas and opinions of the world's leading thinkers, including weekly long reads, book reviews, and interviews; The Year Ahead annual print magazine; the complete PS archive; and more – all for less than $2 a week.

Subscribe Now

Por conseguinte, as mensagens consistentes e credíveis, coordenadas entre anciãos comunitários influentes, líderes religiosos, meios de comunicação e responsáveis locais do governo, são de importância vital. E os responsáveis pela saúde pública têm de partilhar informações sobre a evolução do vírus e sobre as medidas tomadas para a sua contenção, de modo atempado e transparente.

Mas este imperativo ultrapassa a necessidade de manter o público informado. Como reconhecem Piot, Spencer e Soka, as comunidades devem ser “envolvidas e capacitadas” como parceiros principais nas actividades de prontidão e resposta. Esta abordagem ajudará a cumprir outra prioridade: a adaptação das medidas às condições locais, que incluem normas culturais, estruturas comunitárias, ocupações predominantes, mobilidade e o ambiente político, e a capacidade dos sistemas de saúde.

Tudo isto necessitará de liderança determinada. Em vez de deixar a resposta aos ministérios da saúde, os chefes de governo africanos deveriam criar comissões ou estruturas de missão de alto nível para agilizar a tomada de decisões e a mobilização de recursos, nomeadamente através da promoção da coordenação entre órgãos governamentais. O meu país, a Etiópia, já criou uma estrutura de missão de alto nível deste tipo, e organizou instalações nacionais laboratoriais e de diagnóstico, apesar de não existirem casos confirmados.

Se for bem gerida, a resposta ao COVID-19 originará sistemas de saúde mais fortes e que muito mais bem equipados para manter a saúde das populações em alturas normais, e para responder a inevitáveis crises futuras. Mas, para serem bem-sucedidos, os governos africanos precisam de apoio exterior.

A OMS forneceu orientações para o combate ao COVID-19. Através da coordenação com a Comissão da União Africana e com organizações regionais, será mais capaz de mobilizar recursos dos seus parceiros internacionais.

Governos mais experientes (especialmente, o chinês) e agências com mais recursos (como os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) também deveriam fornecer aconselhamento e apoio. Para facilitar a tomada eficaz de decisões, os ministros da saúde africanos têm de manter todas as agências completamente informadas sobre a situação no terreno.

Uma resposta abrangente ao COVID-19 também tem de prever as consequências económicas da pandemia. Os preços do petróleo já estão a cair: más notícias para os produtores africanos. Além disso, as perturbações nas cadeias de abastecimento fazem prever um decréscimo das exportações. Os prejuízos dos sectores do turismo e das viagens só agora começaram a ser evidentes.

Muitas companhias aéreas africanas já suspenderam os voos para a China, contrariamente à orientação da OMS e da Associação do Transporte Aéreo Internacional. Mas outras não o fizeram. Em especial, a Ethiopian Airlines, a maior transportadora de África (e a maior em termos de transporte de passageiros entre a China e África), introduziu novos protocolos de inspecção sanitária e procedimentos preventivos, nomeadamente nos pontos de partida – um processo que obrigou a uma colaboração estreita com as autoridades chinesas. Os pilotos e as tripulações receberam formação para a sua protecção e para a protecção dos passageiros. Os dirigentes da empresa criaram estruturas de missão cujo trabalho é analisado diariamente, e o conselho de administração analisa semanalmente a situação.

Isto está de acordo com a política da Ethiopian Airlines durante a epidemia de Ébola, quando também decidiu não suspender os voos. Mas, à medida que evoluir a situação do COVID-19, a transportadora poderá ter de alterar a sua abordagem de modo a diminuir perdas potencialmente importantes. Muitas empresas poderão enfrentar decisões semelhantes nas próximas semanas. Para proteger as suas economias, os governos africanos têm de agir agora, colaborando com grupos de reflexão e organizações regionais na concepção de soluções eficazes.

Não se sabe quanto tempo será necessário para controlar o COVID-19, nem quantas pessoas serão afectadas. Mas os governos africanos, cooperando com as comunidades e os intervenientes internacionais, podem tomar agora medidas para limitar os danos, e para criar os alicerces de um futuro mais saudável e resistente.

https://prosyn.org/nEzY96hpt;